5.10.07

O Regresso do Mostrengo





  À pergunta que fiz no meu tema Onde Estão os Poetas de Agora? um Poeta via mail respondeu:

Presente!


                O mostrengo que está no fim do mar
                      Na noite de breu ergueu-se a voar.

                            FERNANDO PESSOA, Mensagem

O Regresso do Mostrengo

O mostrengo não está no fim do mar.
Ocupa as ruas, bate à nossa porta,
vomita chamas na cidade morta,
escreve garatujas no luar.

Ei-lo que espreita em cada patamar
pronto a saltar-nos à garganta. Importa
lançar brados de alerta à malta absorta
que se deixou nos ventos embalar.

De pé! O monstro volta! Unir fileiras!
Deixemos as diferenças das bandeiras:
É preciso avançar em marcha unida.

A nossa força é sermos um só povo
e uma só terra a defender de novo.
A morte do mostrengo é a nossa vida!


          Carlos Domingos


Um abraço Carlos!

7.7.07

A Travessia!...



  Atravesso devagar a ponte levando o meu próprio camelo não acreditando muito no aluguer de camelos anunciado na placa (ver tema anterior), pois vindo de quem vem a afirmação de que a margem sul é um deserto, tudo podia acontecer, já que dá o dito por não dito e a gente nunca sabe se o deserto de um momento para o outro deixa de o ser.



  Como disse, eu, homem precavido, levava o meu próprio camelo.

  Atravessada a ponte eis o deserto. Já há vários anos que faço esta travessia para a outra margem e nunca me tinha apercebido que a partir da ponte tudo o que via era o Sahara em ponto pequeno.

  Quer queiramos quer não o homem tem razão.

  Aqui e ali, viam-se pequenos oásis onde uns animais esquisitos, com cornos, pastavam na areia seca. Procurei ver se eram camelos mas ao longe não me pareciam já que os camelos não têm cornos... que se saiba!

  No alto das dunas, despontavam algo parecido com casas, mas bem sabemos o quanto o deserto é traiçoeiro dando-nos imagens inexistentes. Embora hidratado, nunca se sabe as loucuras que o deserto nos reserva, como vendo odaliscas com a sua dança do ventre, caso o desejo sexual seja já uma miragem, ou vendo miragens na própria areia.



  Avanço com o meu camelo naquela inóspita paisagem seca, com bátegas de chuva caindo incessantemente. Já em desespero, vejo ao longe uma placa com a letra M. Pensei que, atravessado o deserto, me encontraria em Marraquexe, mas ó que desilusão, afinal o M era de Mértola, já não podia ler o poema berbere:

Que não caminhes, não sintas, não te percas
Em Marraquexe – a mais bela cidade do Sul


 Desiludido, encostei o meu camelo num oásis, sem jacarandás, roseiras e buganvílias e bebi um café. À minha volta, tuaregues, à falta de um narguilé (cachimbo de água árabe), fumavam cigarros encostados às palmeiras, ou era da minha vista ou a marca dos cigarros era “Camel”.

  O deserto ainda não tinha terminado, uma aragem com cheiro a bosta de camelo chegava-me às narinas vinda do rio Arade.

  Tamanha travessia no deserto, com as fortes e constantes tempestades de areia em estradas asfaltadas, tinham esgotado os recursos hídricos do meu camelo e, assim, quase desfalecido, num poço gasolineiro dei de beber ao bicho sedento.

  Acampei, não entre dunas, mas num «bungalow» com piscina, um luxo no deserto.

  Retiro o chech, as vestes que me envolvem o corpo cheio de areia e tomo um duche.

  A água continuava a cair dos céus (o céu árabe tem sete céus), já não há desertos como dantes.

  No dia seguinte levanto-me bem fresco pela manhã. Vejo se o camelo está em condições e vou pela estrada 125 olhando a paisagem. De repente, o meu camelo parte à desfilada ao encontro de uma cáfila, onde, o líder do grupo, me pareceu ter parecenças assombrosas com o fulano que alugava camelos à saída da ponte.

15.6.07

Finalmente!...





  Ó mortais finalmente... FÉRIAS! Irei atravessar o "deserto" não tenham pena de mim!



Arrivederci!...

26.4.07

Onde estão os Poetas de Agora?!





  Hoje vive-se um vazio, os poetas morreram! Mesmo vivos… estão mortos! Já não cantam como dantes as misérias do país. Já não estão sós! Já não cantam alto, aburguesaram-se. Enquanto na rua o povo desfila cantando as amarguras, eles mantêm-se na toca, no redil do socialismo encapotado. Enquanto nas ruas o povo é corrido à bastonada os poetas andam de braço dado com os “pinóquios” deste país. De quem lhes negou a possibilidade de serem oposição ao homem cinzento que diz que a função do 25 de Abril está acabada.

  Onde andais poetas? Por onde anda a vossa escrita que fez levantar um país contra a opressão, os vampiros, a tortura, o degredo?!...

  Por onde andais poetas?!... Hoje a vossa escrita é um ramalhete de cravos murchos de uma revolução que ainda não se fez, de um Abril que ainda está por fazer!

  Onde o Homem nunca mais explore outro Homem, e que a Liberdade não seja só uma flor no cano de uma espingarda!

  Onde andas tu poeta amigo?!... Eles, o Zeca, o Adriano, o Salgueiro Maia estão à espera que digas como disse Ary:

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado, não!



  Podem castrar-te o corpo poeta de Abril, mas a alma… Nunca!

24.4.07

Por Ti Zeca!... Pelo Salgueiro Maia!... Por Mim!... VIVA ABRIL
















  Um povo que votou como o melhor português de todos os tempos um ditador não merece Abril. Este meu trabalho não é para esse povo, mas sim para aqueles que, como eu, trazem Abril no coração!

  Para os verdadeiros homens e mulheres de Abril!...

   

Clicar na Imagem


  Para ti Zeca que um dia enlacei o meu braço no teu, a minha Homenagem!...


24.4.06

A Rádio e a Revolução de Abril





Abril de Sim, Abril de Não

Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.

Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.

Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.

Manuel Alegre

 A Rádio portuguesa teve o seu momento alto nos dias 24/25 de Abril de 1974, sem a colaboração da rádio era possível que o regime ainda durasse mais algum tempo e o país continuasse mergulhado na “longa noite da ditadura”.

 Cronologia (clicar nas datas):


24 de Abril - 22:55 horas

25 de Abril - 00:20 horas

(A canção inserida neste texto dedico-a ao ditador Bokassa que governa a Região Autónoma da Madeira)

25 de Abril - Das 00:30 às 04h 26'


20.1.06

Por Portugal





  Não gosto de ti. Não sei a razão, ou talvez saiba, mas não gosto de ti. Será do teu “sorriso”? Será do teu penteado? Lembras-me alguém que fez deste país o mais atrasado da Europa. Foi o nosso fado durante 48 anos. Os jovens que daqui partiram de mochila, imberbes, a dizerem adeus no cais de Alcântara e a família de lenço em punho, com as lágrimas que este povo verteu, a acenarem e o barco a zarpar para mais alguns caixões de pinho.

  Não gosto de ti. Nem o facto de um dia teres subido a um coqueiro em S. Tomé me faz pensar que és diferente. És demasiado cinzento. Durante uma década podias ter demonstrado que eras diferente mas não. Foram as cargas policiais, foi o desemprego, foi a terça-feira de Carnaval que quiseste tramar que te tramou, foi o desbaratar dos fundos da comunidade, foi o SIS, foram as escutas no gabinete do Procurador-geral da República, foram os agentes infiltrados no movimento estudantil, foi o desrespeito pela Constituição, chamando de forças de bloqueio às instituições da República. Sabes que se ganhares, e tudo aponta para isso, que não é pelos teus feitos, pela tua “simpatia”, pelo teu tom de voz que o consegues? É simplesmente porque este povo não tem um rumo, anda à deriva, já no tempo dos romanos se dizia que este era um povo que não governa nem se deixa governar. Não sabe o que quer. Tem a dirigir o país pessoas com a mentalidade do país que somos… pequena. Grande foi o Marquês que fez a Avenida da Liberdade e ao gozo dos seus contemporâneos disse: «O que hoje é grande, amanhã será pequeno».

  Não gosto de ti. Não gosto do teu rosto esfíngico. Não gostei quando numa «Creche» falaste para as criancinhas como se estivesses a falar para os teus correligionários, as crianças de pé como nos tempos da outra senhora quando na escola tinha que estar ali de pé para respeitar umas fotos que na parede estavam dependuradas. As criancinhas sem te entenderem patavina, olhavam para ti perfiladas e, uma delas, com o dedito na boca parecia dizer-te: «Tu queres é chucha». Também estou convencido que sim e, se ganhares, sairão das entranhas da terra os “zombies” que, como vampiros, irão morder o pescoço dos inocentes.

  Poderás ser o presidente de todos os portugueses, de quase todos os portugueses, pois de mim… nunca o serás!

17.1.06

Não Há Duas...






  Tento-me convencer que o facto de ter a idade que tenho não me impede, de vez em quando, cumprir com a minha obrigação, a Maria que o diga. Se assim penso, penso que tu também pensas que eu ainda estou para as curvas e, por isso, aqui estou de novo pois como sabes sou como o MP3 – não há duas sem três. Isto agora para nós que ninguém nos ouve, já me custa uma quanto mais três, “merde”. Desculpa estes termos mas sabes que usava muito no tempo do PREC. Era isso e o “mónami” Mitêrrã. Já lá vai o tempo, agora é mais pastéis e croquetes. Sim que isto de dar volta ao país é mais cansativo do que aquelas voltas que dava pelo mundo inteiro no tempo em que dava duas e, o estômago aconchegadito sempre é outra música.

  Se o “filósofo” diz que podes calçar as pantufas a partir dos 65 eu quero mostrar-lhe que ainda é cedo para tal. Olha só para mim, já cá cantam 81 primaveras e ainda não me vejo à lareira. De sobretudo, boina à Che (se visses a colecção de chapéus que tenho até caías, é um chapéu para cada ocasião) e lá vou eu. Tanto bailo na Nazaré como em Alcagoitas de Baixo, o que é preciso é que sintas que eu ainda posso atingir uma terceira vez, sem comprimidos azuis.

  Os que comigo discutem o lugar não têm hipóteses, sabes porquê? Porque conta muito a experiência. Viste aquele debate? Eu malhava nele e ele nada. Eu dizia que ele era um homem do passado, falava do passado dele e ele nada. Cheguei a pensar que estava a falar com uma esfinge do Egipto. O homem não me dava cavaco. Já me torcia todo na cadeira com medo que lhe caísse o nariz e nem nariz nem rosto nem aquele traço na boca dele se lhe alterou, “merde” assim não dá. Mais valia terem-me lá colocado a estátua de cera do Mourinho que ao menos essa aí ainda tem a gravata toda torcida sinal que se mexe, agora aquele ali… nem pestanejou!

  E aquele poeta que pensava que lá por ter lutado por Abril iria ter o apoio dos tais que me apoiaram para que o esfíngico ganhasse. Estás a rir-te? Repara bem, quantos candidatos há do lado esquerdo (faz de conta que ainda sou desse lado)? Quatro. Do outro lado? Um. Povo dividido… povo vencido. Estás a ver a estratégia, e assim vai para lá o tal que nem come pastéis nem croquetes, sisudo, cabelo lacado, mas, mesmo assim, ainda acredito que tu vais fazer os possíveis para que eu pelo menos fique à frente do poeta, senão que “ganda” barraca que isto vai dar e... lá se vai o marocaséfixe.

14.1.06

Por Ti Fiz... Abril.






Trova do Vento que passa

Pergunto ao vento que passa

notícias do meu país

e o vento cala a desgraça



o vento nada me diz.




e o vento cala a desgraça



o vento nada me diz


















Mas há sempre uma candeia

dentro da própria desgraça

há sempre alguém que semeia




canções no vento que passa.





há sempre alguém que semeia




canções no vento que passa.



















Mesmo na noite mais triste


em tempo de servidão


há sempre alguém que resiste




há sempre alguém que diz não.





há sempre alguém que resiste




há sempre alguém que diz não.




  Sei que esperavas de mim um sim e eu disse… “nim”. Olhei para ti e verifiquei a tua decepção. Contavas comigo e eu, sentindo a tua presença em mim, disse... sim!

 Por ti fiz Abril. Por ti deixei o país, por ti dei a minha voz, por ti gritei... Liberdade!

  Hoje sei, que isso que por ti fiz está esquecido, dás voz a quem nunca deu a voz por ti. Mas compreendo-te. Não é fácil ver o que vemos. Tudo cada vez mais difícil, mais longe dos ideais que fizeram Abril. Eu sei que também tenho a minha cota parte em tudo isso, mas sabes como é, gostar de alguém como eu gosto tem dessas facetas menos agradáveis. Mas afinal não valeu a pena. Afinal quando me deviam ter apoiado viraram-me as costas. Gente que nunca soube o que era estar na prisão por ti. Gente que cai de ski enquanto eu caía nas malhas daqueles que te oprimiam.

  As palavras e os actos morrem na voragem do tempo, mas sei que as minhas trovas ainda hoje são para ti um bálsamo e, quando passo, olhas para mim com a nostalgia de um passado que te fez vibrar, que te fez vir para a rua, que te fez lutar por um país livre, por um país que quiseste bom para ti e para as gerações vindouras. Eu estou aqui. Faço parte de um passado, mas também faço parte de um futuro caso tu o queiras.

  Sei que como poeta que sou, graça em mim uma certa ingenuidade. Uma ingenuidade de criança em corpo de homem, mas sabes como é!... se assim não fosse, não seria eu. Sou o que sou e sei que sendo como sou tu olhas para mim de uma forma diferente da que olhas para os outros. Sei que gostas de mim e sei que não me irei arrepender de ter dito sim, porque tu o quiseste e por ti voltei a ser quem sou, um homem que ama a Liberdade, a Cidadania e teve em ti a inspiração nas Trovas que o meu coração cantou.


  P.S. – Manuel podes não ganhar, podes até não conseguir aquilo que pretendes, mas podes estar certo que nas minhas longas noites de capim, uma voz cantou aquilo que tu um dia escreveste, e eu, ali, no meio daquele “Mar Vegetal” senti em ti... Abril. Para mim serás sempre... o meu PRESIDENTE!

10.1.06

Com Confiança…





  … Te digo que se tivesses dançado comigo não te irias casar com outro. Mas não, preferes um pé-de-chumbo ao meu passo ligeiro. Se me visses, todo esbelto, sim que sou lindo, já uma peixeira me tinha dito, a dançar, não uma dança de salão qualquer mas sim uma da nossa terra, daquelas que tu gostas, nunca mais me esquecerias.

  Ai, como eu deslizo, suave como uma pena, tanto nos mercados como nas fábricas. Mas tu não queres saber. E o meu sorriso, quão alvo ele é. Sorrio para a esquerda, sorrio para a direita, levanto a cabeça, até parece que vou fazer uma pega de caras e, ali, o povo todo unido a bater palmas e olé!... Desculpa-me esta exaltação!... Até estou envergonhado!

  Também sei fazer cara de poucos amigos, sabes como é, uma pessoa também não pode ser uma perna aberta para toda a gente, há que manter as distâncias pois o que seria se tu soubesses que nas horas que não estou contigo estou no bailarico com outras?

  Ainda um dia destes veio um pateta alegre desancar-me por causa de um Cunhal qualquer que nem conheço, mas levou logo pela medida grande e ali mesmo cantei o Grândola de um revolucionário cantor ostracizado por um partido que desconheço.

  Ah se tu me visses, ali de braço dado com o pessoal, deviam pensar que podia cair e estavam a segurar-me, talvez lembrados do que aconteceu a um que fuma charutos e fala durante horas, que tropeçou em pleno palco caindo para gáudio dos milhares vendilhões de templos.

  Com confiança te digo, se olhares para mim como devias ter sempre olhado, outro galo cantará no poleiro e só ficarás a ganhar, terás toda a aldeia como pista de dança e, enquanto houver pão e circo, todos os dias será um bailarico pegado.